Talvez os momentos não possam ser transcritos numa fidelidade imagética, pois, muito do que se cria naquele instante, padece de uma explicação já criada em algum momento da história. No entanto, o que se pode fazer é a mais raza aproximação, tangenciando os sentidos mais puros e translúcidos que puderam ser observados num átimo. Pois bem.
Já sob o sol dourado, que salpicava aquele sem-fim de grama, onde o mundo de estudos, paradigmas, ciências, construções e desconstruções fazia-se presente; lá estávamos nós. A princípio, a luta burocrática – como sempre se fez, papéis contra pessoas – nos tirou alguns preciosos instantes. No entanto, nada haveria de derrubar nosso humor. Tristemente, muitas e muitos não faziam-se presentes, como já há um tempo ocorria. Lamentável, pois de uma construção se lhe tiram os pilares, tudo pode vir abaixo. Mas levantamos os braços, seguramos o telhado torto e seguimos para mais um dia.
Ah, vá! Anfiteatro e não auditório! Apesar de frustrações (até muito explícitas em algumas pessoas a la carte), nos apropriamos do espaço novo. Compacto. Mas quem precisa de muito espaço para construir castelos no ar? Então, magistralmente, eu diria, nosso querido amigo dos jogos eletrônicos vanguardistas nos presentou com um espetáculo de aquecimento, de variados ritmos, todos eles ditados por uma máquina que certamente há de dominar o mundo um dia. Se já não o fez.
Rimos tanto, aquecemos tanto que esquecemos da hora.
Próximo exercício: leitura esquizofrênica. Muito do que acontece hoje diz-se esquizofrenia. O trânsito, a falta de luz, o sabor insosso da vida, crime e castigo. Tudo doença da mente. Ou será tudo mentira da doença? Que seja. Novamente tecnologizando, trocamos celulares e, vergonhosamente vasculhando vidas alheias, capturamos fragmentos de vida na internacionalmente conhecida como inbox. Ou apenas mensagens recebidas.
Na triangulação que se fez, era preciso ler, esperar uma resposta nada coerente e triangular o público, ou seja, recepcioná-lo com o olhar, acalentando os sentidos e mandando a muda mensagem: estamos aqui, não nos esquecemos de vocês. Pronto, a festa estava feita. Após muitos sustos, mensagens engraçadas, vergonhosas e até mesmo nonsense, finalizamos e tocamos a prosear.
Que raio de linha? A linha, a mesma que constitui o cachecol, o fio da meada, que a velha estava a fiar quando veio a mosca lhe fazer mal. Sim. Pensamos em falar da linha, a tênue entre tudo e nada, entre cá e lá, entre nós e o infinito. Mas no eco ressoante do entressonho, nos perdemos e achamos melhor escrever.
Aos sussurros, escolhemos alguns livros para nortear nossa escrita. A atividade era simples: escreva um diálogo sem a resposta, pense na resposta, mas não escreva. O diálogo precisava de não-respostas, precisava ser unilateral, ser biunívoco mas unilateral, precisava ser constante e fluido, mas de um para um, precisava... ah, me perdi. Achei-me ali, sentado, pensando no gigante turbilhão de histórias ainda não contadas, todas elas entrecruzando-se no negrume do mundo que não existe, mas que pode existir. Era só apanhar uma, traduzir para palavras mortais e pronto. Tudo feito.
E assim foi-se. E todos pegamos algum fragmento de ideia, passamos ao papel (mas emprestada apenas, porque ideia gosta é de ser livre de amarras). Segundo ato: atuar. De dois em dois, juntando tudo numa salada de palavras bem temperada, começamos a dialogar e ver se o mundo parava de girar ali mesmo.
Conseguimos nos embeber no discurso de um gene egoísta, pregando aos milhares de oprimidos recessivos. Nos deparamos com uma tal de pessoa querendo ser especial, mas conformando-se com sua condição de estar-no-mundo. “Não vejo as horas, mas posso ajustá-las”, diz o velho senhor, sente o idoso senhor. Ali, logo ali ao lado, o conselheiro grita com o rei que ousou desafiar o Tempo. Tempo com maíuscula, pois é personificação de nossos temores. A onda deste mesmo Tempo nos derruba a nossos joelhos, enquanto deus nos priva da dádiva sagrada. De enlouquecer, de amaldiçoar. Uma porta se abriu, mas apenas para uma tia, para uma engolida pelo sistema de empresas da fé. E quem será o culpado? De quem será a culpa? De quem será a desculpa?
Findamos, firulamos, ficamos.
E toca música. Toca ser feliz. Caminhamos e ouvimos, seguindo a canção. Só faltava pedalar... ou não. E dali, dos entremeios mais inesperados, surgiam diálogos, surgiam cenas, vidas, histórias, méritos, discórdias, cidades, mundos. “Foi naquele outono, de 1954...”. Frio. Guerra. Dostoiévski. Andar... andar... a terra vazia, do imundo, do submundo... aproximação de todos nós, involuntária porém verídica. Andar... ouvir... andar... “Pedro cadê meu chipê?!”
O quê? “Um menino foi assassinado por causa de um chip de celular, ontem a tarde”. Pergunta-se ele onde está. Oras, na terra para a qual todos os que usam vivo, oi e claro vão! E tim? Te enganas. Não ria! Qual, qual? Redes sociais? Orkut, Facebook, Twitter, Myspace, Youtube... Risos longos, risos fluidos.
Mais música! Muito embora ao contrário, o efeito do afundar de si a si mesmo após tudo é muito mais efetivo que o de tentar desvanecer logo a princípio. E movimentamos, no escuro. Não estávamos mais ali, fomos para longe, para onde nada importa, mas tudo é importante. Som, escuro, som, escuro...
E pronto. O bicho burocracia e o animal horário nos morderam e precisamos sair de lá. Pudera. Já era tarde aqui. Mas no mundo em que estávamos, hora é coisa boba. Pois é. Juntamos nossas coisas, sorrimos uns para os outros, caminhamos a passos largos para fora. O sol de fim de tarde abraçou nossos corpos com uma leveza doce. A brisa preguiçosa despenteava os cabelos, fazia apertar de leve os olhos. Ali, perseguidos por nossas sombras, encontramos a estrada de tijolos acinzentados que nos conduziu de volta para casa. Mas ah, bem digo, neste caso, há sim lugar como o lar. Pois nosso lar, isso certamente, encontramos uns nos outros.