terça-feira, 27 de julho de 2010

Ser, estar, serenar

Talvez os momentos não possam ser transcritos numa fidelidade imagética, pois, muito do que se cria naquele instante, padece de uma explicação já criada em algum momento da história. No entanto, o que se pode fazer é a mais raza aproximação, tangenciando os sentidos mais puros e translúcidos que puderam ser observados num átimo. Pois bem.

Já sob o sol dourado, que salpicava aquele sem-fim de grama, onde o mundo de estudos, paradigmas, ciências, construções e desconstruções fazia-se presente; lá estávamos nós. A princípio, a luta burocrática – como sempre se fez, papéis contra pessoas – nos tirou alguns preciosos instantes. No entanto, nada haveria de derrubar nosso humor. Tristemente, muitas e muitos não faziam-se presentes, como já há um tempo ocorria. Lamentável, pois de uma construção se lhe tiram os pilares, tudo pode vir abaixo. Mas levantamos os braços, seguramos o telhado torto e seguimos para mais um dia.

Ah, vá! Anfiteatro e não auditório! Apesar de frustrações (até muito explícitas em algumas pessoas a la carte), nos apropriamos do espaço novo. Compacto. Mas quem precisa de muito espaço para construir castelos no ar? Então, magistralmente, eu diria, nosso querido amigo dos jogos eletrônicos vanguardistas nos presentou com um espetáculo de aquecimento, de variados ritmos, todos eles ditados por uma máquina que certamente há de dominar o mundo um dia. Se já não o fez.

Rimos tanto, aquecemos tanto que esquecemos da hora.

Próximo exercício: leitura esquizofrênica. Muito do que acontece hoje diz-se esquizofrenia. O trânsito, a falta de luz, o sabor insosso da vida, crime e castigo. Tudo doença da mente. Ou será tudo mentira da doença? Que seja. Novamente tecnologizando, trocamos celulares e, vergonhosamente vasculhando vidas alheias, capturamos fragmentos de vida na internacionalmente conhecida como inbox. Ou apenas mensagens recebidas.

Na triangulação que se fez, era preciso ler, esperar uma resposta nada coerente e triangular o público, ou seja, recepcioná-lo com o olhar, acalentando os sentidos e mandando a muda mensagem: estamos aqui, não nos esquecemos de vocês. Pronto, a festa estava feita. Após muitos sustos, mensagens engraçadas, vergonhosas e até mesmo nonsense, finalizamos e tocamos a prosear.

Que raio de linha? A linha, a mesma que constitui o cachecol, o fio da meada, que a velha estava a fiar quando veio a mosca lhe fazer mal. Sim. Pensamos em falar da linha, a tênue entre tudo e nada, entre cá e lá, entre nós e o infinito. Mas no eco ressoante do entressonho, nos perdemos e achamos melhor escrever.

Aos sussurros, escolhemos alguns livros para nortear nossa escrita. A atividade era simples: escreva um diálogo sem a resposta, pense na resposta, mas não escreva. O diálogo precisava de não-respostas, precisava ser unilateral, ser biunívoco mas unilateral, precisava ser constante e fluido, mas de um para um, precisava... ah, me perdi. Achei-me ali, sentado, pensando no gigante turbilhão de histórias ainda não contadas, todas elas entrecruzando-se no negrume do mundo que não existe, mas que pode existir. Era só apanhar uma, traduzir para palavras mortais e pronto. Tudo feito.

E assim foi-se. E todos pegamos algum fragmento de ideia, passamos ao papel (mas emprestada apenas, porque ideia gosta é de ser livre de amarras). Segundo ato: atuar. De dois em dois, juntando tudo numa salada de palavras bem temperada, começamos a dialogar e ver se o mundo parava de girar ali mesmo.

Conseguimos nos embeber no discurso de um gene egoísta, pregando aos milhares de oprimidos recessivos. Nos deparamos com uma tal de pessoa querendo ser especial, mas conformando-se com sua condição de estar-no-mundo. “Não vejo as horas, mas posso ajustá-las”, diz o velho senhor, sente o idoso senhor. Ali, logo ali ao lado, o conselheiro grita com o rei que ousou desafiar o Tempo. Tempo com maíuscula, pois é personificação de nossos temores. A onda deste mesmo Tempo nos derruba a nossos joelhos, enquanto deus nos priva da dádiva sagrada. De enlouquecer, de amaldiçoar. Uma porta se abriu, mas apenas para uma tia, para uma engolida pelo sistema de empresas da fé. E quem será o culpado? De quem será a culpa? De quem será a desculpa?

Findamos, firulamos, ficamos.

E toca música. Toca ser feliz. Caminhamos e ouvimos, seguindo a canção. Só faltava pedalar... ou não. E dali, dos entremeios mais inesperados, surgiam diálogos, surgiam cenas, vidas, histórias, méritos, discórdias, cidades, mundos. “Foi naquele outono, de 1954...”. Frio. Guerra. Dostoiévski. Andar... andar... a terra vazia, do imundo, do submundo... aproximação de todos nós, involuntária porém verídica. Andar... ouvir... andar... “Pedro cadê meu chipê?!”

O quê? “Um menino foi assassinado por causa de um chip de celular, ontem a tarde”. Pergunta-se ele onde está. Oras, na terra para a qual todos os que usam vivo, oi e claro vão! E tim? Te enganas. Não ria! Qual, qual? Redes sociais? Orkut, Facebook, Twitter, Myspace, Youtube... Risos longos, risos fluidos.

Mais música! Muito embora ao contrário, o efeito do afundar de si a si mesmo após tudo é muito mais efetivo que o de tentar desvanecer logo a princípio. E movimentamos, no escuro. Não estávamos mais ali, fomos para longe, para onde nada importa, mas tudo é importante. Som, escuro, som, escuro...

E pronto. O bicho burocracia e o animal horário nos morderam e precisamos sair de lá. Pudera. Já era tarde aqui. Mas no mundo em que estávamos, hora é coisa boba. Pois é. Juntamos nossas coisas, sorrimos uns para os outros, caminhamos a passos largos para fora. O sol de fim de tarde abraçou nossos corpos com uma leveza doce. A brisa preguiçosa despenteava os cabelos, fazia apertar de leve os olhos. Ali, perseguidos por nossas sombras, encontramos a estrada de tijolos acinzentados que nos conduziu de volta para casa. Mas ah, bem digo, neste caso, há sim lugar como o lar. Pois nosso lar, isso certamente, encontramos uns nos outros.

segunda-feira, 19 de julho de 2010


Pose

Vamos passear depois do tiroteio
Vamos dançar num cemitério de automóveis
Colher as flores que nascerem no asfalto
Vamos todo mundo...tudo que se possa imaginar

Vamos duvidar de tudo o que é certo
Vamos namorar à luz do pólo petroquímico
Voltar pra casa num navio fantasma
Vamos todo mundo... ninguém pode faltar

Se faltar calor, a gente esquenta
Se ficar pequeno, a gente aumenta
E se não for possível, a gente tenta
Vamos velejar no mar de lama
Se faltar o vento, a gente inventa

Vamos remar contra a corrente
Desafinado coro dos contentes

Vamos velejar num mar de lama
Se faltar o vento a gente inventa

Vamos remar contra a corrente
Desafinado coro dos contentes.


Engenheiros do Hawwai

domingo, 18 de julho de 2010

Encontro em Paranapiacaba

Olás, esse é o relato do nosso encontro-aula na terra encantada.

Chegamos lá por volta das 11h30, e a neblina imperava sobre o lugar! Logo fomos a um barzinho degustar a clássica bebida de lá - o choconhaque - e comer esfihas de todos os gostos e ideologias. Depois fomos dar uma volta pelo vilarejo. Vimos alguns pontos turísticos, uma casa muito engraçada que não tinha teto não tinha nada, o caminho que leva às trilhas, algumas casas abandonadas, um trem antigo sendo tragado pela natureza, e a Casa da Cerâmica. Esse último lugar, na minha opinião, é o mais mágico da terra encantada, lá as coisas acontecem! Lá, algumas artesãs expõem e vendem seus trabalhos em cerâmica, e é um espaço livre e aberto para qualquer coisa relacionada à arte ou intervenção social. E foi lá que fizemos nosso encontro.

No encontro fizemos o tradicional aquecimento-alongamento. Depois, a Potira dirigiu uma dinâmica de leitura de livros que levamos. Nessa dinâmica, fizemos leituras de trechos aleatórios, simulando diferentes situações, personagens e estados emocionais. Também, usando um livro de lendas, a Rita leu o começo da estória e alguns encenaram a continuidade da lenda (destaco o Lost, em sua boa atuação como temido - ou não - Barba Ruiva). Depois, ficamos andando pelo espaço e declamando/cantando aleatoriamente qualquer coisa que viesse às nossas cabeças. Foi aí que a magia começou. Uma criança passou pela porta da sala onde estávamos, cantando "Marcha soldado, cabeça de papel..." e nós, por que não?, continuamos a música, marchando. Logo, brotaram várias crianças na porta, que, aos poucos, foram se achegando. Em pouco tempo, elas estavam batucando num móvel de madeira, e cantando junto conosco. Aqui destaco as crianças: elas batucavam com uma incrível sincronia entre elas e com as músicas, além de cantarem enquanto batucavam. Apesar de não serem músicas muito "raiz da nossa cultura", já fiquei impressionado. Mas, eis que surge, das crianças, cantigas de ciranda (não cirandinha de criança, mas aquela música surgida em algum lugar do nordeste). "Cirandeiro, cirandeiro ó, a pedra do teu anel brilha mais do que o Sol...", "Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou jacaré boiou. Balança o rabo jacaré, balança o rabo jacaré, eu sou jacaré boiou...". Aquilo foi lindo! E foi assim, entre cirandas, funk, techno-brega, etc, que foi até o final do nosso encontro. Depois, fomos à sala de onde vieram as crianças. Lá, elas estavam fazendo desenhos, bagunçando e trepando nas estruturas de madeira. Em azul, escrevo só por mim (Júlio). Lá, havia um desenhista afrancesado (nada contra quem estuda essa língua), que, em nome da segurança, podava o auto-conhecimento das crianças de seus próprios corpos e do espaço ao seu redor, mandando-as descer das estruturas da parede. Também havia uma garota que parecia uma professora de primário amargurada, que podava a autonomia das crianças, mandando-as ficarem sentadas, e podava sua criatividade, mostrando-lhes como elas deveriam fazer seus desenhos. Enfim, saí de lá puto da vida por ter presenciado isso! É válido citar que a galera conversou bastante com o francês, sobre qualquer coisa que não ouvi, que parecia interessante, e que alguns foram com a cara dele.

Depois disso fomos comer fogazza, ao som de Fernando Porto ao vivo. Ficamos um tempo sob uma tenda de barraquinhas, interagindo com alguns palhaços (eu não estava lá) e decidimos ir embora. Um choconhaque de saideira e fomos pegar o ônibus de volta da terra encantada.

Postei algumas fotos que tirei, estão neste link. O Will também tirou fotos.

Adorei este passeio-encontro, espero que haja mais desses =)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Começo!

Bom, apenas para registrar como foi o encontro do grupo no dia 10 de julho.
Apesar dos transtornos por conta do atraso de 10 minutos de uma parte do grupo, este encontro rendeu. Integrantes novos surgindo, o comprometimento tendendo a aumentar, a interação está cada vez melhor...

Iniciamos com uma apresentação de cada um, por conta do pessoal novo. E então discutimos alguns assuntos pertinentes ao grupo, como quem se responsabilizaria pela autorização e a necessidade de criação de um nome para o grupo.

Os integrantes que já tiveram contato com o teatro foram unindo sua experiências e dando forma aos exercícios propostos. Após aquecimento e alongamento, no geral, trabalhamos: posicionamento no palco, direcionamento pelo olhar, planos alto, médio e baixo, objeto cênico invisível, etc.

Na parte da voz, o amigo do Poá, Léo, deu uma ótima contribuição. Trabalhamos o controle da entrada e saída do ar (não me atrevo a falar mais dessa parte, paro por aqui). Na minha opinião foi um ótimo encontro. Com relação ao nome do grupo, foi criado um tópico na comunidade do orkut do - por enquanto, TUSP-EACH, para serem postadas as sugestões.

Para não nos perdermos e irmos dando exercícios atrás de exercícios sem saber a finalidade, foi criado um planejamento pelo gDocs para nos orientarmos em tópicos que são importantes, e este pode ser editado por qualquer integrante caso pense em algo que possa ser acrescentado.

O próximo encontro será em Paranapiacaba em pleno Festival de Inverno, e para este foi combinado que levem-se recortes como textos, poemas, músicas para trabalharmos. A palavra escolhida no final do encontro foi: COMEÇO.